Fontes de Pesquisa:
http://www.ibge.gov.br
http://www.obscriancaeadolescente.org.br
http://www.oitbrasil.org.br
http://portal.saude.gov.br
http://www.saude.sp.gov.br
https://www.sipia.org.br
http://www.unicef.org.br
A Filosofia é um misto de “Admiração (Platão) e Espanto (Aristóteles)”. A filosofia nos permite sair de nossa situação costumeira por meio do nosso pensamento como “se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo...” - Marilena Chaui.
Que vivemos numa sociedade globalizada fruto do progresso científico-tecno-comercial dos últimos séculos (XVII, XVIII, XIX e XX), todos sabemos. Sabemos também que o mundo econômico, ao tecnificar-se, dividiu o público (do mercado) do privado (do lar); ou seja, dividiu o público das relações políticas, baseadas na distribuição do poder, e o privado nas relações da gratuidade. Decorrente a este fato é que a ordem pública, gerada na economia e na política, foi configurando uma maneira de pensar, de argumentar, de exigir mais identificada com a “lógica masculina da eficiência”. A compaixão e a ternura – características do arquétipo feminino – não têm lugar, pois arriscariam a eficiência dos processos estritamente racionais – típicos do universo masculino.
Contrário ao exposto, a “lógica feminina” ficou reduzida ao lar, à lógica de reproduzir a vida, de cuidá-la e de ajudá-la a crescer, não mais partindo do intercâmbio recíproco dos produtos, mas da gratuidade total de quem reproduz a vida e a alimenta, sem exigir nada em troca.
A sociedade se tornou masculina na sua realidade e a “utopia” da ternura feminina se tornou algo marginal, privado, doméstico, sem influência na vida social – aqui se encontra um dos problemas fundamentais da nossa sociedade atual, a saber: a mulher ainda ter que reclamar o seu (legítimo) lugar na sociedade.
Prova disso é que há 100 anos, Clara Zetkin, dirigente do Partido Social Democrata Alemão, viu aprovada sua proposta de instaurar o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres. Essa referência histórica, por si só, já seria suficiente para demarcar a data com seu sentido principal: a luta. Foi nesse caminho que as mulheres foram para as ruas em todas as partes do mundo, inúmeras vezes: pelo direito ao voto, a salários iguais, para denunciar a violência cotidiana a que são submetidas, desde a humilhação doméstica à mais brutal violência física e psicológica.
Diante das constantes lutas, comparadas às difíceis condições impostas pelo longo frio do inverno, empreendidas em vários setores por tantas mulheres, pedimos licença à Cecília Meirelles para comparar a mulher à “primavera” ("Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366); pois, assim como a primavera, a mulher insurge “mesmo que ninguém saiba o seu nome”; assim como a primavera, a mulher é “dona da vida” e dela é plena.
Como a primavera, a mulher carrega a utopia – entendida aqui como esperança – do surgimento de algo novo; no caso, de uma sociedade nova; de algo que não encontramos por aí, mas que está no que as mulheres têm de melhor e latente e que a sociedade não reconhece, a saber: a mulher como portadora dos valores da gratuidade e do respeito à vida – assim como a primavera, parafraseando os versos de Cecília Meirelles.
Normalmente os cidadãos fazem da participação eleitoral, do voto a sua forma única de participar da sociedade. Isso gera uma visão limitada da democracia e uma visão limitada da cidadania. Participar é muito mais do que votar. Participar é ter a disposição de lutar dia-a-dia pela garantia do bem estar de cada um e de todos. Para garantir direitos é preciso que toda a sociedade reconheça que determinadas necessidades do indivíduo e da comunidade são fundamentais para a sua sobrevivência e para a vida em sociedade por isso transforma essas necessidades em direitos que são reconhecidos através das leis.
Quando os direitos viram lei nós conseguimos apenas uma parte do direito. O importante é que depois de virar lei o Estado, a Sociedade e a Família assegurem no dia a dia o que está escrito na lei, do contrário ficamos apenas com belas declarações e a situação social continua com suas injustiças, disparidades e políticas de exclusão e exploração. Quando o direito vira lei nós conquistamos uma parte importante daquilo que chamamos de cidadania: o direito de ter direitos. Mas para ser respeitado como cidadão é preciso que se entenda o conceito de cidadania como: direito de ter direitos; direito de construir a cada dia novos direitos, direito de conhecer os próprios direitos; e direito de usufruir todos os dias dos seus direitos, isto é, tê-los respeitados no dia a dia.Sem estes quatro elementos inseparáveis ninguém é cidadão.
Neste sentido, com o voto a gente participa de apenas um aspecto da cidadania, que é o aspecto da delegação de poder, isto é, a gente passa a responsabilidade a uma pessoa, a um grupo, a um partido político de administrar o país para assegurar os direitos de todos. Este aspecto constitui o que normalmente temos chamado de democracia representativa.
Para que a democracia deixe de ser meramente política e realmente funcione ela precisa de outra dimensão que a torne também uma democracia social: a democracia participativa. O melhor seria nem fazer esta separação mas a verdade é que quando você elege seu representante você não passa toda a responsabilidade para ele. Uma parte da responsabilidade continua com a sociedade que tem diferentes formas de continuar participando de decisões sempre.
No campo do Controle Social e da Participação Popular que fazem com que os princípios de uma democracia participativa e descentralizada conforme preconiza nossa Carta Magna, a Constituição Federal, estão os conselhos de políticas públicas, as conferências e os fóruns como espaços importantíssimos e privilegiados de participação para além do voto.
Os Conselhos de Políticas são órgãos de deliberação das políticas de atendimento e garantia dos direitos, compostos em sua metade por representantes da sociedade civil, e em outra por representantes do poder executivo. A importância dos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais é que, ao deliberar sobre políticas públicas, têm a possibilidade de definir programas intersetoriais, rompendo com a dispersão de recursos e serviços, podendo organizar uma rede de atenção com serviços das diferentes áreas das políticas públicas.
Mas a participação não termina aqui. A cada nova iniciativa da comunidade, a cada novo grupo que se forma para enfrentar os problemas de sua comunidade, a cada nova instituição que nasce é assegurado o direito a apresentar suas reivindicações, sua opinião e suas sugestões. Para que esta riqueza das experiências da sociedade possa repercutir nas políticas públicas e melhorar a qualidade de vida das pessoas, é preciso que haja um equilíbrio entre a participação formal (aquela que depende de escolher pessoas, delegados, instituições, representantes..) e a participação direta através de fóruns, seminários, eventos, manifestações públicas, campanhas, mobilização social e todas as outras formas.
Para além disso, num sentido mais amplo, a defesa de direitos implica também num amplo processo pedagógico de formação e informação para a produção de uma cultura de cidadania ativa. Crianças, adolescentes, adultos devem todos ter a oportunidade de conhecer e debater os próprios direitos para produzir iniciativas de alcançá-los. Estamos nos referindo à dimensão de mobilização social que a defesa de direitos tem. Mobilizar a sociedade significa mantê-la permanentemente atenta e sensibilizada para a necessidade de manifestar-se diante de todas as ações equivocadas, as omissões e as negligencias seja do Estado, da Família ou da própria sociedade.
O importante é que a vitalidade, a criatividade e as forças vivas da sociedade tenham força política e espaço para fazer ouvir sua voz pois sem ela os direitos nunca serão direitos plenos.
Encontramo-nos já no fim da primeira década do século vinte e um. De fato, o tempo, categoria tão importante, passa e passa de depressa. Para constatar o fato, cito aqui as inúmeras vezes em que ouvi dentro e fora do ambiente de trabalho a expressão “como o tempo (ano) passou rápido”! Bom, não vamos filosofar sobre o tempo, vamos refletir sobre como, com o tempo, as visões de mundo mudam.
Existe uma expressão na filosofia alemã que nos orienta e, ao mesmo tempo nos pergunta sobre a visão de mundo que temos – Weltanschauun. Esta expressão significa, entre outras coisas, perceber com o pensamento um mundo inteligível. O termo mundo não interessa nesse momento; aqui, no sentido cosmológico, como a totalidade dos entes, como realidade objetiva. Interessa no momento o mundo como sendo a totalidade de cada concreto espaço de vida e o horizonte da nossa compreensão – quero dizer até onde nossos olhos podem alcançar. Aqui concordamos com Heidegger que o homem (e mulher) “é um ser no mundo”.
Uma pergunta se faz necessária: qual é a origem do mundo, o homem ou as coisas? A resposta parece indubitável: o homem; porque é ele quem troca as coisas em objetos quando lhes outorga um sentido humano; quero dizer, estabelece com as coisas uma relação. E essa relação humaniza o mundo. A partir da humanização das coisas, elas se complicam e se problematizam.
Aqui, em primeiro lugar precisamos dizer que somos pessoas situadas e que o somos dentro de um mundo complexo. Em segundo lugar que fazemos, pela e com a cultura, um mundo humano e, simultaneamente, a cultura nos faz ou nos desfaz – essa é a condição humana, sem perder tempo aqui e agora com determinismos ambientais nem com teorias a respeito da natureza do homem. Vimos lembrar apenas que nós, homens e mulheres, vivemos numa situação concreta e que daí se derivam, quiçá, os nossos (e de outros) pressupostos ideológicos.
Para ilustrar, o filósofo Ortega y Gasset fez circular sua filosofia em torno da assertiva “Eu sou eu e a minha circunstância”; ou seja, vive-se, move-se e delimita-se por um espaço e tempo circundante. Isso quer dizer que não se pode escapar dessa situação-limite, como não se pode escapar da própria sombra (a não ser ao meio-dia). Enfim, trata-se de dizer que se está inserido em um determinado momento histórico e cultural.
Aqui cabem outras perguntas: em qual momento histórico e cultural estamos inseridos? Quais fatos, acontecimentos e idéias marcaram esta década e influenciaram nossa Weltanschauung (visão de mundo ou cosmovisão)? Que visão de mundo nos orienta no momento ou nos orientará no futuro?
A tentativa de responder a tais perguntas deve, principalmente, encaminhar-nos a refletir sobre as nossas relações com o mundo. Mundo aqui entendido ampla e concretamente. Usando a terminologia emprestada da fenomenologia existencial, pode-se fazer a distinção de três mundos com os quais o homem interage, a saber: o mundo ambiental (Umwelt); o mundo intersubjetivo (Mitwelt) e o mundo próprio (Eigenwelt). O que resta saber é que em cada época e em cada cultura, o ser humano adquire uma nova visão do mundo peculiar e característica – alguns filósofos já falaram disto. Na verdade, hoje, sabemos todos mais coisas sobre o mundo do que acreditavam saber/conhecer, ontem, os sábios – daqui decorre nossa responsabilidade.
O intuito deste artigo não é dar uma resposta – até porque este não é o propósito da reflexão filosófica – mas o de provocar você leitor (a) a buscar uma percepção; ou melhor, uma concepção totalizante do mundo que, de certo modo, oriente (orientará) a sua maneira de ser, viver, fazer, agir, pensar e sentir. Sim, qual é a tua concepção do mundo? Desta resposta dependerá, sobretudo, o futuro, nas próximas décadas, das relações dos homens entre si e dos homens com o mundo.
Anderson Alves Costa
Os animais trabalham instintivamente buscando na natureza o sue sustento. Mas o homem não pode simplesmente ficar nisso. Para buscar o seu sustento, ele tem que transformar a natureza, adaptando-a a si mesmo, desde ao que se refere à alimentação, até a sua sobrevivência no planeta. Através do homem, o mundo se humaniza para servir ao homem. E isso se faz por meio do trabalho. Nele o homem transforma o mundo e transforma a si mesmo, tornando-se cada vez mais humano. Por meio dele opera-se a misteriosa passagem da natureza para a cultura. Simples passagem ou ruptura violenta? Dependerá do trabalho que se realizará.
O que interessa no momento, porém, não vem por aí; interessa sim, é que o trabalho é uma realidade social que toca a todos. Por viverem juntos, os homens, todos dependem do trabalho, sejam patrões ou empregados. Aqui, se instaura outro problema, os das relações sociais criadas pelo trabalho, que não soa simples, nem fáceis. No centro desta questão está o salário. Há uma passagem bíblica rezando que “o homem é digno do seu salário”, completo dizendo que, para a maioria, nem sempre. Se todo trabalho é digno, qual seria o salário justo? Bom também não será este o ponto; apenas reforço para que nunca o percamos de vista.
A dignidade do trabalho, seja ele qual for, se traduz por meio de três caminhos: do diálogo com a natureza; do diálogo entre os próprios homens e do diálogo com Deus (transcendentalmente falando). Em se tratando do trabalho enquanto diálogo com a natureza, é ela que produz para o homem um valor imenso; ela lhe proporciona o alimento, o espaço vital, a proteção. Se o homem a destrói, ele acaba com os próprios meios que produzem a vida. Por causa da vida, “o trabalho humano é subordinado à conservação dos seus meios de produção” (LANTZ: p.297, 1977). O que a natureza tem de utilidade é tão continuamente usado e transformado pelo homem que “nenhuma forma de natureza determinada pela arte humana é eterna” (idem, p. 384).
A atividade produtiva humana tem, pois, três dinamismos: ela descobre, torna acessível e usa um valor já produzido pela natureza. Ela destrói este valor, mais o conserva, ao transformá-lo continuamente em valores novos que o trabalho cria. Finalmente, ela estabelece um intercâmbio de matéria vital, um “metabolismo” entre o ser humano e a natureza.
Destruindo, ou melhor, consumindo a natureza, para fazer dela algo mais útil ainda, o ser humano se desgasta, mas cria condições de vida para si e todos os outros. Certo que o trabalho é, pois, uma atividade “natural” no sentido de que ele não separa o homem da natureza; mais que isso, ele é a própria natureza agindo através do homem. Ele (o trabalho) é a “capacidade de utilização da matéria viva ou bruta, sob forma determinada” (ibidem, p.302), produzida pela forma humana do trabalho. É do trabalho de uns que vivem todos. Como produção de objetos úteis, elementos acessíveis e necessários à vida, o trabalho é um intercâmbio de vida entre a natureza e o gênero humano; enquanto criação de possibilidades de vida para os outro, o trabalho é um intercâmbio entre os homens.
O trabalho não é uma realidade separa das outras. O trabalho só existe e se concretiza quando e porque o trabalhador se mexe, produz, cansa-se e se desgasta. Dizer que o trabalho produz significa dizer que o ser humano, trabalhando, produz. É no corpo do trabalho que o trabalho se concretiza, no exercício de sua força de trabalho. Mesmo cessada a atividade, o trabalho mora na vida do trabalhador. Ele impregna e condiciona todo o seu modo de agir, de ser e pensar, de sentir e julgar. Entretanto, as sociedades nunca produziram apenas comida, bebida e habitação. Elas sempre produziram símbolos extremamente variados, abundantes e ricos, de um relacionamento que escapa ao nível da sobrevivência física, e ultrapassa os limites dos intercâmbios humanos. Ser gente é ter desejos infinitos, projetos insaciáveis, utopias: ser para Algo além de si mesmo (a religião chama de Deus).
Tanto uma filosofia do trabalho quanto uma teologia do trabalho; ou melhor, do trabalhador, é uma busca de sentido profundo de existir como trabalhador; pois é no trabalho que o ser humano se realiza e se manifesta no que tem de mais característico. No trabalho, o que especifica propriamente o humano é a dimensão de intercâmbio que ele desenvolve, por força da qual, o trabalho é dinamismo e forma de con-viver. Nisto consiste, numa pequena parte, a dignidade do trabalho e, por consequência, a dignidade de todo trabalhador, descobrir-se, realizar-se, relacionar-se, dialogar com a natureza, consigo mesmo, com os outros e com Deus.
Anderson Alves Costa