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(Robert R. Carkhuff. In.: COSTA, Antônio Carlos Gomes. Pedagogia da Presença:
da solidão ao encontro. Belo Horizonte: Ed. Modus Faciendi; 1997.)

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Carioca, 35 anos. Estou no Estado de Minas Gerais há 13 anos. Educador há 12 anos, filósofo, teólogo e pedagogo. Como filosofia de vida assumi o seguinte: SER, AMAR E SERVIR. Atualmente atuo como gerente administrativo do Conselho Comunitário de Segurança Pública de Araxá. Membro coordenador da Mesorregião 9 (5ª RISP) - Triângulo e Alto Paranaíba - ESPASSO CONSEG (Estado, Profissionais da Área de Segurança e Sociedade Organizada em prol da Segurança Pública) - Criador da Rede Social de Articulação e Mobilização dos Direitos da Criança e do Adolescente de Araxá e Região - http://dcaaraxa.ning.com - Colaborador da Coluna Filosofia e Afins do periódico virtual Diário de Araxá - www.diariodearaxa.com.br

sábado, 3 de abril de 2010

“Filosofia (e/da) Religião: Entre os limites do Sagrado e do Profano”.

Vamos refletir sobre o que também, antropologicamente falando, é dimensão constitutiva e inata ao homem: a dimensão religiosa. Essa dimensão passa pelo “fascínio ou não” que o home tem pelo sagrado e pelos limites que o separa do que é profano. Antes de tudo, convém ressaltar que a preocupação com o homem dentro do grande edifício filosófico deu-se com Sócrates (569 – 499 ªC.) quando, pela primeira vez, na Filosofia passa a ser profundamente discutida a temática: Quem é o homem?
Aprofunda-se, então, o campo da ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA e se desenvolve a GNOSIOLOGIA (teoria do conhecimento). À pergunta: “Quem é o homem?”, Sócrates responde: O homem é sua alma. A alma é a sede da atividade racional, ética e do conhecimento. Para ter acesso aos conteúdos da alma empregava o método da introspecção estimulada. Esta se articula em três momentos: o da ironia – “só sei que nada sei”; o da maiêutica; e o conceito. Conhecer é recordar, daí a frase: “conhece-te a ti mesmo”. Podemos encontrar já em Sócrates as primeiras manifestações da Psicologia.
A expressão “Conhece-te ti mesmo”; ou o oráculo que estava gravado no pórtico do templo de Apolo, em Delfos, deus da luz e da sabedoria, foi o centro das preocupações e investigações de Sócrates e, posteriormente de toda a Antropologia Filosófica (antropós: conhecimento do homem).
Dentro dos corredores da Filosofia foram várias as tentativas de se responder a pergunta colocada por Sócrates. Cada corrente ou pensador deu a sua contribuição; contudo pensou-se o homem não de forma integrada como hoje, mas divisa. Para uns o homem era apenas vontade desejos e paixões, para outros apenas o que ele mesmo fabricava; para outros ainda, era meramente político, para alguns outros, um ser social; outros mais insistiam em dizer que o homem poderia ser definido pela sua dimensão lúdica; outros por sua dimensão psicossomática (claro que não nesta ordem); por fim, para não estender nossa lista, outros tentaram responder à pergunta socrática atribuindo ao homem a dimensão religiosa.
Na verdade o fato é que todas estas dimensões são inatas ao homem e o constituem como tal e, o mais importante, de forma integrada e não divisa. Ora, se são inatas ao homem e o constituem enquanto tal, por isso não podem ser negadas – nem uma nem outra. Aqui chegamos ou ponto de justificativa do título deste artigo. Tal como a dimensão psicossomática, volitiva, política, social, sexual, lúdica e do trabalho, a dimensão religiosa é dimensão intrínseca ao homem e, por isso, por mais que o homem tente negá-la tanto mais ele a reafirma; e por assim dizer, o homem caminha entre os limites do sagrado e do profano num constante vai-e-vem; num constante diálogo.
Se é fato que nenhuma realidade humana pode viver fora do contexto histórico; também é fato que o ser humano transcende todos os contextos. É uma experiência que o homem e a mulher faz e expressa de muitas maneiras, conforme seus horizontes culturais. Ora fala-se da essência, da estrutura profunda, da realidade última, do cerne, da natureza autêntica do ser humano; ora de situações, circunstâncias, eventualidades que os afetam. Em todos os casos intui-se que há em cada homem e mulher realidades permanentes, estáveis, e outras transitórias, fugazes. Mais: as realidades permanentes somente se tornam perceptíveis, reais, atualizadas, nas concretas e diárias circunstâncias. É precisamente com essa percepção que contamos, sem querer entrar em nenhuma filosofia sofisticada. Tiramo-la do nosso cotidiano.
Tendo colocado o princípio de que a dimensão religiosa é dimensão constitutiva do homem e por isso não podemos negá-la – caso contrário negaríamos todas as outras – e por mais que se tente negá-la acaba-se por afirmá-la; dizemos, por conseguinte, que tal fascínio pelo Sagrado – seja ele positivo ou negativo – dá-se pela pergunta: Algo ou Alguém? O sagrado aproxima-se do ser humano vindo de uma região desconhecida, diferente, fora do cotidiano, ferindo-lhe especialmente os sentidos. Ele se esvaece toda vez que se vulgariza, se cotidianiza, se seculariza, se banaliza, se torna comum e ordinário.
O caminhar entre os limites do sagrado e do profano tem forte conotação conjuntural. A razão iluminista, por exemplo, reelegera a dimensão religiosa e, com ela, a religião ao mundo do mito, do infantilismo, do primitivo, do atrasado, do superado; acusou-a de estar mergulhada ao mundo das trevas e que agora teria raiado a “era das luzes”. Mais adiante, outros condenaram-na como alienação ao manter pessoas na dependência, incapazes de assumir a própria autonomia. Essa razão caiu por terra; perdeu-se em pura funcionalidade, instrumentalidade. Abandonou o universo do mistério, do sentido, das perguntas fundamentais do ser humano e produziu superabundância de bens afogando o ser humano num consumismo gigantesco que ainda está por crescer. Cada dia constroem-se shoppings uns maiores que os outros para que, num único espaço, possamos nos maravilhar da abundância dos bens para o nosso uso.
Lado à lógica instituída pela sociedade moderna do capital: quanto mais demanda, tanto mais oferta; assim também a demanda religiosa cresceu. Aqui o sagrado sofre outra influência conjuntural: desaparece o monopólio das grandes religiões. Ora, o fenômeno da privatização que ocorreu na economia também veio incrementando a religião por meio da secularização. Tudo, enfim, pode ser comercializado pelo mercado; inclusive a religião, sobretudo quando promete que vai dar lucro; é por causa disso que se observa fatos tão contraditórios apresentados nos programas de televisão. Um dia é apresentado um programa que expõe o corpo de alguma deusa do sexo, outro dia são oferecidos programas religiosos, outro mostra um programa esportivo e musical; o tipo de programa não importa, o que importa é que se dê audiência, ou então, seja comprado. Importa que se venda, que se faça negócios e que o consumo se aqueça. No interior da lógica do mercado neoliberal não vinga o que não pode tornar-se produto de compra e lucro.
Onde se estabelece os limites entre o sagrado e o profano? Cada vez mais a dimensão religiosa leva ao homem a uma certa subjetividade; ao homem e à sociedade leva-os ao fator da própria afirmação de um ou de outro. A religião por conseguinte transformou-me ela mesma num produto. Daqui, o que poderíamos esperar sobre o futuro da sensibilidade religiosa? Algo fundado na própria escolha pessoal ou fundado na verdade e na experiência e não na autoridade? O que poderia se considerado verdadeiro seria assegurado pela experiência emocional, intensa e envolvente de cada um? Seria algo fundado no bem-estar psíquico, na harmonia e integração? Seria também algo fundado em “verdades” que integram todas as fontes, religiosas ou não?
A verdade é que “o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra algo como absolutamente diferente do profano” – diz Mircea Eleade em seu livro “O Sagrado e o Profano: a essência das Religiões”.

Anderson Alves Costa

Bibliografia:
ELIADE, Mircea.: O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. Ed. Martins Fontes: São Paulo, 1992.
RORTY, Richard; VATTIMO, Gianni.: O Futuro da Religião: solidariedade, caridade, ironia. Ed. Relume Dumará: Rio de Janeiro, 2006.

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