Há um ano, vimos no noticiário nacional o efeito devastador ocasionado pelas chuvas, a exemplo deste efeito, o ocorrido em Angra dos Reis. Mal saímos do luto pelas vítimas das enchentes “fomos” todos pegos pelo terremoto no Haiti, país que já vitimado pela absurda pobreza sofre (ainda) com uma catástrofe natural de escala assombrosa. Em 2011, não diferente, mais uma vez a natureza, por meio das chuvas constantes, vem mostrando a sua força. No Brasil já são centenas de vítimas entre mortos e desabrigados. Como disse um amigo meu em seu profile: “agora, o Haiti é aqui [...]”
Como se não nos bastassem esses acontecimentos naturais ainda há tantos outros frutos da ação humana, como: a violência em suas mais variadas formas, a corrupção, a miséria, a intolerância... Sendo assim, perguntamo-nos? Existe um propósito para isto tudo? Se existe, qual será? É tudo fruto do acaso? Há porventura a possibilidade de tirar algo bom de tudo isso?
São perguntas que, se colocadas diante de tais eventos naturais ou humanos, não querem calar. Servir-nos-emos da Filosofia e da Teologia – a essa também nos cabe também buscar auxílio – a fim de apontar outras questões que podem auxiliar-nos a buscar um sentido para a nossa efêmera existência. No campo da ingenuidade religiosa há muitos que tentam amenizar tamanho sofrimento (seja o próprio ou dos outros) dizendo: “É vontade de Deus!” Por meio deste artigo tentaremos dar passos em direção contrária ao mero conformismo e determinismo .
Com certeza, penso que você leitor (a) ao ouvir falar em “Caos” e “Ordem” tenha uma pequena noção do seu significado. Com freqüência, utilizamos a palavra Caos para expressar nossa incapacidade de descrever, ou melhor, prever o mundo que nos cerca. Essa sensação, que então atribuímos à palavra pelo uso, tem origem na coleção de fatos e reações acumulados no dia a dia, incategorizáveis e vagos mas que com o tempo demonstram-se decisivos, sem que consigamos dizer ao certo se houve ou qual foi o fato central.
Na mitologia grega, o Caos era considerado o estado não organizado, ou “o nada”, de onde todas as coisas surgiam. De acordo com a Teogonia (relato da origem dos deuses) de Hesiodo, o Caos precedeu a origem, não só do mundo, mas também dos deuses. A cosmogonia (relato da origem do mundo) de Orpheu afirma que Chronos (personificação do tempo) deu origem a Ether e a Caos, este formou um enorme ovo de onde nasceu o Paraíso, a Terra e Eros.
Para a Filosofia da Religião o que caracterizava as sociedades tradicionais/primitivas era a oposição que elas subentendiam entre o seu território habitado e o espaço desconhecido e indeterminado que as cercava: o primeiro é o “mundo” – “o nosso mundo”, ou, para alguns, o “cosmos” (ordem) – se você leitor (a) quer ter uma idéia exata daquilo que os gregos chamavam de “cosmos”, o mais simples é imaginar o universo como ser fosse um ser organizado e animado; o segundo, o “caos”, é uma espécie de “outro mundo”, um espaço estrangeiro, caótico, desorganizado.
A tendência das coisas se desordenarem espontaneamente é uma característica fundamental da natureza. Para que ocorra a organização é necessária alguma ação que restabeleça a ordem, aqui entra a Teoria do Caos. Atualmente, com o desenvolvimento da Matemática e das outras ciências, a Teoria do Caos surgiu com o objetivo de compreender e dar resposta às flutuações erráticas e irregulares que se encontram na Natureza, resíduos da formação primordial vinda do grande ovo de Caos.
Ainda no campo da ciência, a investigação do Caos teve início nos anos 60, quando se descobriu que sistemas complexos, que podiam descrever possíveis previsões do tempo, podiam ser traduzidos por equações matemáticas simples. Do mesmo modo, sistemas que eram aparentemente simples e modelos deterministas, podiam levar a problemas muito complexos.
Não querendo explicar algo que talvez pareça inexplicável, mas por meio do estudo desta ciência, verificou-se que um sistema passa facilmente de um estado de ordem (organizado) para um estado caótico (desorganizado), podendo surgir, por vezes de uma maneira espontânea, dentro do caos, a ordem. Também foi verificado que pequenas diferenças nas condições iniciais de um sistema podem conduzir a diferenças bastante significativas no resultado final, sendo deste modo fortemente abalado o paradigma da física ou da ideologia deterministas (sejam tais ideologias políticas, filosóficas, religiosas, sociais, etc). Entretanto, compreendendo o comportamento caótico, muitas vezes é possível entender como o sistema se comportará como um todo ao longo do tempo.
Os conceitos de Caos e Ordem, tanto quanto o conceito de racionalidade, não têm uma significação normativa. O Caos não é de per si negativo e a Ordem não é de per si positiva. Parece até que entre os dois existe uma mútua dependência. Klaus Schulten, em seu trabalho: "Ordem do caos, razão por acaso" (Schulten, 1987), analisou a questão de como o cérebro humano usa, para o direcionamento do comportamento racional, o papel construtivo do acaso. A biologia molecular, já há bastante tempo, usa o conceito do Caos de forma heuristicamente rica (Eigen e Schuster; 1978). Assim, mostraram como seres vivos geram sistematicamente o acaso e investigaram, dessa forma, o meio deles. O vôo da mosca (mosca doméstica), por exemplo, não tem direção bem definida, mas constitui um conjunto de movimentos não-ordenados, que admite que o acaso tenha um papel decisivo na determinação da trajetória. O movimento do vôo acidental está sendo criado no sistema nervoso motor do inseto. Podemos então dizer que ele cria permanentemente Ordem no Caos, na medida em que ele não se perde no espaço e alcança seus objetivos biologicamente definidos de alimentação e reprodução.
A Filosofia e a Teologia atestam, a grosso modo e cada qual a sua maneira, que é com extremada relevância que a desordem (o Caos) se impõe aos ritmos ordenados da vida, provocando a oportunidade de desestabilizar e, portanto, incomodar e convidar ao desassossego, permitindo assim os avanços que só acontecem mediante mudanças. Aquele que espera por estabilidade contínua certamente se frustrará, além de não compreender a essência das transformações e do desenvolvimento, retardando maior velocidade a que tem direito nas passadas que adentram o saber e o estreitamento da relação entre o presente e o futuro.
O Caos faz parte da sobrevivência e aperfeiçoamento das espécies, em destaque o ser humano. Algumas ciências assim o atestaram inequivocamente através das comprovadas transformações geológicas e climáticas, das mutações genéticas, assim como das ações do próprio homem que imprimiram novos resultados ao longo de milhares de anos. Sem a devida inquietude tendemos à acomodação aprisionadora. As sociedades se beneficiaram do espinho caótico que lhes importunou ao ponto de se reorganizarem dramaticamente (política e economicamente, por exemplo) a fim de se manterem sobreviventes na corrida da/pela vida. Aqui surge a possibilidade e ao mesmo tempo oportunidade dos Estados afetados pelas fortes chuvas se reorganizarem, passarem do Caos à Ordem.
Caos (desordem/vazio) é o que se pode dizer das recentes tragédias ocasionadas pelas fortes chuvas, sobretudo na Região Serrana do Rio de Janeiro. A experiência do caos pode ser extremamente formativa e agregadora de eternidade pois, quando o homem se percebe sem o devido controle de si e das coisas, principalmente no que deseja e sente, ele percebe que o Caos é precisa condição de possibilidade para que a Ordem aconteça.
* Por Anderson Alves Costa
