A Filosofia é um misto de “Admiração (Platão) e Espanto (Aristóteles)”. A filosofia nos permite sair de nossa situação costumeira por meio do nosso pensamento como “se estivéssemos acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar o que é, por que é e como é o mundo...” - Marilena Chaui.
Sejam todos bem-vindos!
“ O único significado da vida é crescer. Nenhum preço é alto demais para o crescimento. Apenas compreendendo isto, você poderá ajudar alguém a crescer”
(Robert R. Carkhuff. In.: COSTA, Antônio Carlos Gomes. Pedagogia da Presença:
da solidão ao encontro. Belo Horizonte: Ed. Modus Faciendi; 1997.)
Muito prazer!
- Anderson Alves
- Araxá, Minas Gerais, Brazil
- Carioca, 35 anos. Estou no Estado de Minas Gerais há 13 anos. Educador há 12 anos, filósofo, teólogo e pedagogo. Como filosofia de vida assumi o seguinte: SER, AMAR E SERVIR. Atualmente atuo como gerente administrativo do Conselho Comunitário de Segurança Pública de Araxá. Membro coordenador da Mesorregião 9 (5ª RISP) - Triângulo e Alto Paranaíba - ESPASSO CONSEG (Estado, Profissionais da Área de Segurança e Sociedade Organizada em prol da Segurança Pública) - Criador da Rede Social de Articulação e Mobilização dos Direitos da Criança e do Adolescente de Araxá e Região - http://dcaaraxa.ning.com - Colaborador da Coluna Filosofia e Afins do periódico virtual Diário de Araxá - www.diariodearaxa.com.br
sábado, 3 de abril de 2010
“Filosofia (e/da) Religião: Entre os limites do Sagrado e do Profano”.
Aprofunda-se, então, o campo da ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA e se desenvolve a GNOSIOLOGIA (teoria do conhecimento). À pergunta: “Quem é o homem?”, Sócrates responde: O homem é sua alma. A alma é a sede da atividade racional, ética e do conhecimento. Para ter acesso aos conteúdos da alma empregava o método da introspecção estimulada. Esta se articula em três momentos: o da ironia – “só sei que nada sei”; o da maiêutica; e o conceito. Conhecer é recordar, daí a frase: “conhece-te a ti mesmo”. Podemos encontrar já em Sócrates as primeiras manifestações da Psicologia.
A expressão “Conhece-te ti mesmo”; ou o oráculo que estava gravado no pórtico do templo de Apolo, em Delfos, deus da luz e da sabedoria, foi o centro das preocupações e investigações de Sócrates e, posteriormente de toda a Antropologia Filosófica (antropós: conhecimento do homem).
Dentro dos corredores da Filosofia foram várias as tentativas de se responder a pergunta colocada por Sócrates. Cada corrente ou pensador deu a sua contribuição; contudo pensou-se o homem não de forma integrada como hoje, mas divisa. Para uns o homem era apenas vontade desejos e paixões, para outros apenas o que ele mesmo fabricava; para outros ainda, era meramente político, para alguns outros, um ser social; outros mais insistiam em dizer que o homem poderia ser definido pela sua dimensão lúdica; outros por sua dimensão psicossomática (claro que não nesta ordem); por fim, para não estender nossa lista, outros tentaram responder à pergunta socrática atribuindo ao homem a dimensão religiosa.
Na verdade o fato é que todas estas dimensões são inatas ao homem e o constituem como tal e, o mais importante, de forma integrada e não divisa. Ora, se são inatas ao homem e o constituem enquanto tal, por isso não podem ser negadas – nem uma nem outra. Aqui chegamos ou ponto de justificativa do título deste artigo. Tal como a dimensão psicossomática, volitiva, política, social, sexual, lúdica e do trabalho, a dimensão religiosa é dimensão intrínseca ao homem e, por isso, por mais que o homem tente negá-la tanto mais ele a reafirma; e por assim dizer, o homem caminha entre os limites do sagrado e do profano num constante vai-e-vem; num constante diálogo.
Se é fato que nenhuma realidade humana pode viver fora do contexto histórico; também é fato que o ser humano transcende todos os contextos. É uma experiência que o homem e a mulher faz e expressa de muitas maneiras, conforme seus horizontes culturais. Ora fala-se da essência, da estrutura profunda, da realidade última, do cerne, da natureza autêntica do ser humano; ora de situações, circunstâncias, eventualidades que os afetam. Em todos os casos intui-se que há em cada homem e mulher realidades permanentes, estáveis, e outras transitórias, fugazes. Mais: as realidades permanentes somente se tornam perceptíveis, reais, atualizadas, nas concretas e diárias circunstâncias. É precisamente com essa percepção que contamos, sem querer entrar em nenhuma filosofia sofisticada. Tiramo-la do nosso cotidiano.
Tendo colocado o princípio de que a dimensão religiosa é dimensão constitutiva do homem e por isso não podemos negá-la – caso contrário negaríamos todas as outras – e por mais que se tente negá-la acaba-se por afirmá-la; dizemos, por conseguinte, que tal fascínio pelo Sagrado – seja ele positivo ou negativo – dá-se pela pergunta: Algo ou Alguém? O sagrado aproxima-se do ser humano vindo de uma região desconhecida, diferente, fora do cotidiano, ferindo-lhe especialmente os sentidos. Ele se esvaece toda vez que se vulgariza, se cotidianiza, se seculariza, se banaliza, se torna comum e ordinário.
O caminhar entre os limites do sagrado e do profano tem forte conotação conjuntural. A razão iluminista, por exemplo, reelegera a dimensão religiosa e, com ela, a religião ao mundo do mito, do infantilismo, do primitivo, do atrasado, do superado; acusou-a de estar mergulhada ao mundo das trevas e que agora teria raiado a “era das luzes”. Mais adiante, outros condenaram-na como alienação ao manter pessoas na dependência, incapazes de assumir a própria autonomia. Essa razão caiu por terra; perdeu-se em pura funcionalidade, instrumentalidade. Abandonou o universo do mistério, do sentido, das perguntas fundamentais do ser humano e produziu superabundância de bens afogando o ser humano num consumismo gigantesco que ainda está por crescer. Cada dia constroem-se shoppings uns maiores que os outros para que, num único espaço, possamos nos maravilhar da abundância dos bens para o nosso uso.
Lado à lógica instituída pela sociedade moderna do capital: quanto mais demanda, tanto mais oferta; assim também a demanda religiosa cresceu. Aqui o sagrado sofre outra influência conjuntural: desaparece o monopólio das grandes religiões. Ora, o fenômeno da privatização que ocorreu na economia também veio incrementando a religião por meio da secularização. Tudo, enfim, pode ser comercializado pelo mercado; inclusive a religião, sobretudo quando promete que vai dar lucro; é por causa disso que se observa fatos tão contraditórios apresentados nos programas de televisão. Um dia é apresentado um programa que expõe o corpo de alguma deusa do sexo, outro dia são oferecidos programas religiosos, outro mostra um programa esportivo e musical; o tipo de programa não importa, o que importa é que se dê audiência, ou então, seja comprado. Importa que se venda, que se faça negócios e que o consumo se aqueça. No interior da lógica do mercado neoliberal não vinga o que não pode tornar-se produto de compra e lucro.
Onde se estabelece os limites entre o sagrado e o profano? Cada vez mais a dimensão religiosa leva ao homem a uma certa subjetividade; ao homem e à sociedade leva-os ao fator da própria afirmação de um ou de outro. A religião por conseguinte transformou-me ela mesma num produto. Daqui, o que poderíamos esperar sobre o futuro da sensibilidade religiosa? Algo fundado na própria escolha pessoal ou fundado na verdade e na experiência e não na autoridade? O que poderia se considerado verdadeiro seria assegurado pela experiência emocional, intensa e envolvente de cada um? Seria algo fundado no bem-estar psíquico, na harmonia e integração? Seria também algo fundado em “verdades” que integram todas as fontes, religiosas ou não?
A verdade é que “o homem toma conhecimento do sagrado porque este se manifesta, se mostra algo como absolutamente diferente do profano” – diz Mircea Eleade em seu livro “O Sagrado e o Profano: a essência das Religiões”.
Anderson Alves Costa
Bibliografia:
ELIADE, Mircea.: O Sagrado e o Profano: a essência das religiões. Ed. Martins Fontes: São Paulo, 1992.
RORTY, Richard; VATTIMO, Gianni.: O Futuro da Religião: solidariedade, caridade, ironia. Ed. Relume Dumará: Rio de Janeiro, 2006.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Assim como a Primavera, é a Mulher!
Que vivemos numa sociedade globalizada fruto do progresso científico-tecno-comercial dos últimos séculos (XVII, XVIII, XIX e XX), todos sabemos. Sabemos também que o mundo econômico, ao tecnificar-se, dividiu o público (do mercado) do privado (do lar); ou seja, dividiu o público das relações políticas, baseadas na distribuição do poder, e o privado nas relações da gratuidade. Decorrente a este fato é que a ordem pública, gerada na economia e na política, foi configurando uma maneira de pensar, de argumentar, de exigir mais identificada com a “lógica masculina da eficiência”. A compaixão e a ternura – características do arquétipo feminino – não têm lugar, pois arriscariam a eficiência dos processos estritamente racionais – típicos do universo masculino.
Contrário ao exposto, a “lógica feminina” ficou reduzida ao lar, à lógica de reproduzir a vida, de cuidá-la e de ajudá-la a crescer, não mais partindo do intercâmbio recíproco dos produtos, mas da gratuidade total de quem reproduz a vida e a alimenta, sem exigir nada em troca.
A sociedade se tornou masculina na sua realidade e a “utopia” da ternura feminina se tornou algo marginal, privado, doméstico, sem influência na vida social – aqui se encontra um dos problemas fundamentais da nossa sociedade atual, a saber: a mulher ainda ter que reclamar o seu (legítimo) lugar na sociedade.
Prova disso é que há 100 anos, Clara Zetkin, dirigente do Partido Social Democrata Alemão, viu aprovada sua proposta de instaurar o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres. Essa referência histórica, por si só, já seria suficiente para demarcar a data com seu sentido principal: a luta. Foi nesse caminho que as mulheres foram para as ruas em todas as partes do mundo, inúmeras vezes: pelo direito ao voto, a salários iguais, para denunciar a violência cotidiana a que são submetidas, desde a humilhação doméstica à mais brutal violência física e psicológica.
Diante das constantes lutas, comparadas às difíceis condições impostas pelo longo frio do inverno, empreendidas em vários setores por tantas mulheres, pedimos licença à Cecília Meirelles para comparar a mulher à “primavera” ("Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366); pois, assim como a primavera, a mulher insurge “mesmo que ninguém saiba o seu nome”; assim como a primavera, a mulher é “dona da vida” e dela é plena.
Como a primavera, a mulher carrega a utopia – entendida aqui como esperança – do surgimento de algo novo; no caso, de uma sociedade nova; de algo que não encontramos por aí, mas que está no que as mulheres têm de melhor e latente e que a sociedade não reconhece, a saber: a mulher como portadora dos valores da gratuidade e do respeito à vida – assim como a primavera, parafraseando os versos de Cecília Meirelles.
Filosofia e Política Pressuposto para uma democracia social
Normalmente os cidadãos fazem da participação eleitoral, do voto a sua forma única de participar da sociedade. Isso gera uma visão limitada da democracia e uma visão limitada da cidadania. Participar é muito mais do que votar. Participar é ter a disposição de lutar dia-a-dia pela garantia do bem estar de cada um e de todos. Para garantir direitos é preciso que toda a sociedade reconheça que determinadas necessidades do indivíduo e da comunidade são fundamentais para a sua sobrevivência e para a vida em sociedade por isso transforma essas necessidades em direitos que são reconhecidos através das leis.
Quando os direitos viram lei nós conseguimos apenas uma parte do direito. O importante é que depois de virar lei o Estado, a Sociedade e a Família assegurem no dia a dia o que está escrito na lei, do contrário ficamos apenas com belas declarações e a situação social continua com suas injustiças, disparidades e políticas de exclusão e exploração. Quando o direito vira lei nós conquistamos uma parte importante daquilo que chamamos de cidadania: o direito de ter direitos. Mas para ser respeitado como cidadão é preciso que se entenda o conceito de cidadania como: direito de ter direitos; direito de construir a cada dia novos direitos, direito de conhecer os próprios direitos; e direito de usufruir todos os dias dos seus direitos, isto é, tê-los respeitados no dia a dia.Sem estes quatro elementos inseparáveis ninguém é cidadão.
Neste sentido, com o voto a gente participa de apenas um aspecto da cidadania, que é o aspecto da delegação de poder, isto é, a gente passa a responsabilidade a uma pessoa, a um grupo, a um partido político de administrar o país para assegurar os direitos de todos. Este aspecto constitui o que normalmente temos chamado de democracia representativa.
Para que a democracia deixe de ser meramente política e realmente funcione ela precisa de outra dimensão que a torne também uma democracia social: a democracia participativa. O melhor seria nem fazer esta separação mas a verdade é que quando você elege seu representante você não passa toda a responsabilidade para ele. Uma parte da responsabilidade continua com a sociedade que tem diferentes formas de continuar participando de decisões sempre.
No campo do Controle Social e da Participação Popular que fazem com que os princípios de uma democracia participativa e descentralizada conforme preconiza nossa Carta Magna, a Constituição Federal, estão os conselhos de políticas públicas, as conferências e os fóruns como espaços importantíssimos e privilegiados de participação para além do voto.
Os Conselhos de Políticas são órgãos de deliberação das políticas de atendimento e garantia dos direitos, compostos em sua metade por representantes da sociedade civil, e em outra por representantes do poder executivo. A importância dos Conselhos Nacional, Estaduais e Municipais é que, ao deliberar sobre políticas públicas, têm a possibilidade de definir programas intersetoriais, rompendo com a dispersão de recursos e serviços, podendo organizar uma rede de atenção com serviços das diferentes áreas das políticas públicas.
Mas a participação não termina aqui. A cada nova iniciativa da comunidade, a cada novo grupo que se forma para enfrentar os problemas de sua comunidade, a cada nova instituição que nasce é assegurado o direito a apresentar suas reivindicações, sua opinião e suas sugestões. Para que esta riqueza das experiências da sociedade possa repercutir nas políticas públicas e melhorar a qualidade de vida das pessoas, é preciso que haja um equilíbrio entre a participação formal (aquela que depende de escolher pessoas, delegados, instituições, representantes..) e a participação direta através de fóruns, seminários, eventos, manifestações públicas, campanhas, mobilização social e todas as outras formas.
Para além disso, num sentido mais amplo, a defesa de direitos implica também num amplo processo pedagógico de formação e informação para a produção de uma cultura de cidadania ativa. Crianças, adolescentes, adultos devem todos ter a oportunidade de conhecer e debater os próprios direitos para produzir iniciativas de alcançá-los. Estamos nos referindo à dimensão de mobilização social que a defesa de direitos tem. Mobilizar a sociedade significa mantê-la permanentemente atenta e sensibilizada para a necessidade de manifestar-se diante de todas as ações equivocadas, as omissões e as negligencias seja do Estado, da Família ou da própria sociedade.
O importante é que a vitalidade, a criatividade e as forças vivas da sociedade tenham força política e espaço para fazer ouvir sua voz pois sem ela os direitos nunca serão direitos plenos.
Qual é a tua...?
Encontramo-nos já no fim da primeira década do século vinte e um. De fato, o tempo, categoria tão importante, passa e passa de depressa. Para constatar o fato, cito aqui as inúmeras vezes em que ouvi dentro e fora do ambiente de trabalho a expressão “como o tempo (ano) passou rápido”! Bom, não vamos filosofar sobre o tempo, vamos refletir sobre como, com o tempo, as visões de mundo mudam.
Existe uma expressão na filosofia alemã que nos orienta e, ao mesmo tempo nos pergunta sobre a visão de mundo que temos – Weltanschauun. Esta expressão significa, entre outras coisas, perceber com o pensamento um mundo inteligível. O termo mundo não interessa nesse momento; aqui, no sentido cosmológico, como a totalidade dos entes, como realidade objetiva. Interessa no momento o mundo como sendo a totalidade de cada concreto espaço de vida e o horizonte da nossa compreensão – quero dizer até onde nossos olhos podem alcançar. Aqui concordamos com Heidegger que o homem (e mulher) “é um ser no mundo”.
Uma pergunta se faz necessária: qual é a origem do mundo, o homem ou as coisas? A resposta parece indubitável: o homem; porque é ele quem troca as coisas em objetos quando lhes outorga um sentido humano; quero dizer, estabelece com as coisas uma relação. E essa relação humaniza o mundo. A partir da humanização das coisas, elas se complicam e se problematizam.
Aqui, em primeiro lugar precisamos dizer que somos pessoas situadas e que o somos dentro de um mundo complexo. Em segundo lugar que fazemos, pela e com a cultura, um mundo humano e, simultaneamente, a cultura nos faz ou nos desfaz – essa é a condição humana, sem perder tempo aqui e agora com determinismos ambientais nem com teorias a respeito da natureza do homem. Vimos lembrar apenas que nós, homens e mulheres, vivemos numa situação concreta e que daí se derivam, quiçá, os nossos (e de outros) pressupostos ideológicos.
Para ilustrar, o filósofo Ortega y Gasset fez circular sua filosofia em torno da assertiva “Eu sou eu e a minha circunstância”; ou seja, vive-se, move-se e delimita-se por um espaço e tempo circundante. Isso quer dizer que não se pode escapar dessa situação-limite, como não se pode escapar da própria sombra (a não ser ao meio-dia). Enfim, trata-se de dizer que se está inserido em um determinado momento histórico e cultural.
Aqui cabem outras perguntas: em qual momento histórico e cultural estamos inseridos? Quais fatos, acontecimentos e idéias marcaram esta década e influenciaram nossa Weltanschauung (visão de mundo ou cosmovisão)? Que visão de mundo nos orienta no momento ou nos orientará no futuro?
A tentativa de responder a tais perguntas deve, principalmente, encaminhar-nos a refletir sobre as nossas relações com o mundo. Mundo aqui entendido ampla e concretamente. Usando a terminologia emprestada da fenomenologia existencial, pode-se fazer a distinção de três mundos com os quais o homem interage, a saber: o mundo ambiental (Umwelt); o mundo intersubjetivo (Mitwelt) e o mundo próprio (Eigenwelt). O que resta saber é que em cada época e em cada cultura, o ser humano adquire uma nova visão do mundo peculiar e característica – alguns filósofos já falaram disto. Na verdade, hoje, sabemos todos mais coisas sobre o mundo do que acreditavam saber/conhecer, ontem, os sábios – daqui decorre nossa responsabilidade.
O intuito deste artigo não é dar uma resposta – até porque este não é o propósito da reflexão filosófica – mas o de provocar você leitor (a) a buscar uma percepção; ou melhor, uma concepção totalizante do mundo que, de certo modo, oriente (orientará) a sua maneira de ser, viver, fazer, agir, pensar e sentir. Sim, qual é a tua concepção do mundo? Desta resposta dependerá, sobretudo, o futuro, nas próximas décadas, das relações dos homens entre si e dos homens com o mundo.
Anderson Alves Costa
No que consiste a dignidade do Trabalho e do Trabalhador?
Os animais trabalham instintivamente buscando na natureza o sue sustento. Mas o homem não pode simplesmente ficar nisso. Para buscar o seu sustento, ele tem que transformar a natureza, adaptando-a a si mesmo, desde ao que se refere à alimentação, até a sua sobrevivência no planeta. Através do homem, o mundo se humaniza para servir ao homem. E isso se faz por meio do trabalho. Nele o homem transforma o mundo e transforma a si mesmo, tornando-se cada vez mais humano. Por meio dele opera-se a misteriosa passagem da natureza para a cultura. Simples passagem ou ruptura violenta? Dependerá do trabalho que se realizará.
O que interessa no momento, porém, não vem por aí; interessa sim, é que o trabalho é uma realidade social que toca a todos. Por viverem juntos, os homens, todos dependem do trabalho, sejam patrões ou empregados. Aqui, se instaura outro problema, os das relações sociais criadas pelo trabalho, que não soa simples, nem fáceis. No centro desta questão está o salário. Há uma passagem bíblica rezando que “o homem é digno do seu salário”, completo dizendo que, para a maioria, nem sempre. Se todo trabalho é digno, qual seria o salário justo? Bom também não será este o ponto; apenas reforço para que nunca o percamos de vista.
A dignidade do trabalho, seja ele qual for, se traduz por meio de três caminhos: do diálogo com a natureza; do diálogo entre os próprios homens e do diálogo com Deus (transcendentalmente falando). Em se tratando do trabalho enquanto diálogo com a natureza, é ela que produz para o homem um valor imenso; ela lhe proporciona o alimento, o espaço vital, a proteção. Se o homem a destrói, ele acaba com os próprios meios que produzem a vida. Por causa da vida, “o trabalho humano é subordinado à conservação dos seus meios de produção” (LANTZ: p.297, 1977). O que a natureza tem de utilidade é tão continuamente usado e transformado pelo homem que “nenhuma forma de natureza determinada pela arte humana é eterna” (idem, p. 384).
A atividade produtiva humana tem, pois, três dinamismos: ela descobre, torna acessível e usa um valor já produzido pela natureza. Ela destrói este valor, mais o conserva, ao transformá-lo continuamente em valores novos que o trabalho cria. Finalmente, ela estabelece um intercâmbio de matéria vital, um “metabolismo” entre o ser humano e a natureza.
Destruindo, ou melhor, consumindo a natureza, para fazer dela algo mais útil ainda, o ser humano se desgasta, mas cria condições de vida para si e todos os outros. Certo que o trabalho é, pois, uma atividade “natural” no sentido de que ele não separa o homem da natureza; mais que isso, ele é a própria natureza agindo através do homem. Ele (o trabalho) é a “capacidade de utilização da matéria viva ou bruta, sob forma determinada” (ibidem, p.302), produzida pela forma humana do trabalho. É do trabalho de uns que vivem todos. Como produção de objetos úteis, elementos acessíveis e necessários à vida, o trabalho é um intercâmbio de vida entre a natureza e o gênero humano; enquanto criação de possibilidades de vida para os outro, o trabalho é um intercâmbio entre os homens.
O trabalho não é uma realidade separa das outras. O trabalho só existe e se concretiza quando e porque o trabalhador se mexe, produz, cansa-se e se desgasta. Dizer que o trabalho produz significa dizer que o ser humano, trabalhando, produz. É no corpo do trabalho que o trabalho se concretiza, no exercício de sua força de trabalho. Mesmo cessada a atividade, o trabalho mora na vida do trabalhador. Ele impregna e condiciona todo o seu modo de agir, de ser e pensar, de sentir e julgar. Entretanto, as sociedades nunca produziram apenas comida, bebida e habitação. Elas sempre produziram símbolos extremamente variados, abundantes e ricos, de um relacionamento que escapa ao nível da sobrevivência física, e ultrapassa os limites dos intercâmbios humanos. Ser gente é ter desejos infinitos, projetos insaciáveis, utopias: ser para Algo além de si mesmo (a religião chama de Deus).
Tanto uma filosofia do trabalho quanto uma teologia do trabalho; ou melhor, do trabalhador, é uma busca de sentido profundo de existir como trabalhador; pois é no trabalho que o ser humano se realiza e se manifesta no que tem de mais característico. No trabalho, o que especifica propriamente o humano é a dimensão de intercâmbio que ele desenvolve, por força da qual, o trabalho é dinamismo e forma de con-viver. Nisto consiste, numa pequena parte, a dignidade do trabalho e, por consequência, a dignidade de todo trabalhador, descobrir-se, realizar-se, relacionar-se, dialogar com a natureza, consigo mesmo, com os outros e com Deus.
Anderson Alves Costa