Que vivemos numa sociedade globalizada fruto do progresso científico-tecno-comercial dos últimos séculos (XVII, XVIII, XIX e XX), todos sabemos. Sabemos também que o mundo econômico, ao tecnificar-se, dividiu o público (do mercado) do privado (do lar); ou seja, dividiu o público das relações políticas, baseadas na distribuição do poder, e o privado nas relações da gratuidade. Decorrente a este fato é que a ordem pública, gerada na economia e na política, foi configurando uma maneira de pensar, de argumentar, de exigir mais identificada com a “lógica masculina da eficiência”. A compaixão e a ternura – características do arquétipo feminino – não têm lugar, pois arriscariam a eficiência dos processos estritamente racionais – típicos do universo masculino.
Contrário ao exposto, a “lógica feminina” ficou reduzida ao lar, à lógica de reproduzir a vida, de cuidá-la e de ajudá-la a crescer, não mais partindo do intercâmbio recíproco dos produtos, mas da gratuidade total de quem reproduz a vida e a alimenta, sem exigir nada em troca.
A sociedade se tornou masculina na sua realidade e a “utopia” da ternura feminina se tornou algo marginal, privado, doméstico, sem influência na vida social – aqui se encontra um dos problemas fundamentais da nossa sociedade atual, a saber: a mulher ainda ter que reclamar o seu (legítimo) lugar na sociedade.
Prova disso é que há 100 anos, Clara Zetkin, dirigente do Partido Social Democrata Alemão, viu aprovada sua proposta de instaurar o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres. Essa referência histórica, por si só, já seria suficiente para demarcar a data com seu sentido principal: a luta. Foi nesse caminho que as mulheres foram para as ruas em todas as partes do mundo, inúmeras vezes: pelo direito ao voto, a salários iguais, para denunciar a violência cotidiana a que são submetidas, desde a humilhação doméstica à mais brutal violência física e psicológica.
Diante das constantes lutas, comparadas às difíceis condições impostas pelo longo frio do inverno, empreendidas em vários setores por tantas mulheres, pedimos licença à Cecília Meirelles para comparar a mulher à “primavera” ("Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366); pois, assim como a primavera, a mulher insurge “mesmo que ninguém saiba o seu nome”; assim como a primavera, a mulher é “dona da vida” e dela é plena.
Como a primavera, a mulher carrega a utopia – entendida aqui como esperança – do surgimento de algo novo; no caso, de uma sociedade nova; de algo que não encontramos por aí, mas que está no que as mulheres têm de melhor e latente e que a sociedade não reconhece, a saber: a mulher como portadora dos valores da gratuidade e do respeito à vida – assim como a primavera, parafraseando os versos de Cecília Meirelles.
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