Duas posições diante das coisas, do mundo e do homem
Quero apresentar-lhes, prezados leitores, duas grandes personagens da Filosofia: Parmênides e Heráclito. Eles fazem parte do primeiro grupo de filósofos chamados de pressocráticos, fisicistas ou naturalistas, pois se preocupavam sobretudo com as questões relativas à natureza e sua origem, ao movimento, etc. Não é objetivo deste arquivo discorrer sobre todo o pensamento destes dois filósofos – até porque não nos permitiria o espaço – e sim, considerar apenas a tese central de cada um deles e refletir sobre o que penso ser importante.
“O ser é e não pode não ser” é a tese principal de Parmênides: tese que exprime, a respeito do devir, a imutabilidade; ou seja, nada muda. Já para Heráclito seu ponto de partida é a constatação do incessante devir das coisas. O mundo é um fluxo perpetuo: “Não é possível descer duas vezes ao mesmo rio nem tocar duas vezes numa substancia mortal no mesmo estado; pela velocidade do movimento, tudo se dissipa e se recompõe de novo, tudo vem e vai”. A palavra chave é mudança. Diferentemente de Parmênides, ele concebe a realidade como algo dinâmico, em constante modificação.
Ambos falam da possibilidade de conhecer o mundo, as coisas e o proprio homem, contudo, por caminhos contrarios. Um fala da imutabilidade, o outro da mobilidade. Um, de certa forma, dogmatiza, o outro, relativiza. Um assume uma postura conservadora, o outro, progressista.
Conceber o mundo, as coisas e o homem como realidades imutaveis é desconsiderar o aspecto dinâmico de todas estas realidades, inclusive do proprio homem. É fechar todas as possibilidades de conhecer limitando o objeto a ser conhecido a uma única característica. O que se poderia conhecer de um objeto que se apresenta apenas de forma única e continua? Sem dúvidas que Parmênides contribui para a formulação do conceito do ser uno, perfeito e eterno, por outro lado, abole a possibilidade de transformação das coisas, do mundo e do homem com a concepção da ideia do imutável.
Ao afirmar que o que conhecemos e percebemos por via da razão é o que realmente é; dá a razão humana um grau de confiabilidade extremo que absolutiza o que conhecemos. Duas consequencias decorrem daqui: ele dicotomiza a relação existente entre razão e os sentidos e desconsidera este último. Assumir a postura de Parmênides de forma unilateral seria desconsiderar a pluralidade do ser sobretudo nos dias de hoje.
Por outro lado, afirmar que “tudo é devir e movimento” concebendo assim a realidade do mundo apenas como algo dinâmico, em constante modificação, traz-nos um certo desconforto, como diz a música: “Nada do que foi será de novo de um jeito que já foi um dia. Tudo passa, tudo sempre passará...” O que poderia garantir a estabilidade das coisas, do ser no mundo, do proprio mundo e do homem? Como se definiria a verdade? O que realmente poderíamos conhecer? Esta concepção inaugurou, de certa forma, o relativismo vivido hoje por nossa sociedade, onde as pessoas dizem que “tudo é relativo”. Proclamar a pluralidade do ser, das coisas, do homem e do mundo não significa relativizar o ser, as coisas, o homem e o mundo, pelo contrario!
A tomada de posição hoje deve centrar-se na tentativa de conciliar as ideias deste dois filósofos que contribuíram para o todo do edificio filosófico. Existem realidades perenes e imutaveis assim como também existem outras que são dinâmicas e moveis; caberá cada um opinar criticamente sobre tais realizades sem absolutizá-las nem muito menos relativizá-las.
Anderson Alves Costa
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