A Epistemologia analisa os fundamentos utilizados para a compreensão da realidade e do conhecimento da mesma. Dogmatismo, Ceticismo, Relativismo, entre outros “ismos”, referem-se a um posicionamento filosófico sobre o produto ou o processo de/pela busca da verdade, em que se questiona: o produto do conhecimento obtido é verdadeiro? Como alcançar o conhecimento verdadeiro?
Ao tentarem responder a esses questionamentos, ao longo da História da Filosofia, os filósofos apresentaram diversas respostas, que se referem a diferentes tipos de conhecimento. A célebre frase do sofista Górgias: “Nada existe; se existisse, não poderia ser conhecido; se conhecido, não poderia ser comunicado”, permite-nos perceber três niveis de ceticismo: o ceticismo em relação à verdade, em que esta não existiria; a agnosticismo, em que a verdade até pode existir, mas não seria conhecida; e a incomunicabilidade da verdade conhecida.
Os que não são adeptos a uma religião podem se declarar céticos com relação à verdade religiosa, alguns agnósticos. E, ainda, alguns místicos podem se dizer céticos do ponto de vista da comunicabilidade da experiência religiosa. Essas são as possíveis posturas em relação ao conhecimento religioso, mas é importante ressaltar que são posturas intelectuais e não políticas – pelo menos em tese.
Por outro lado, teríamos o dogmático, este acredita que a verdade existe e é inabalável, da mesma forma como o conhecimento religioso seria verdadeiro e composto de um conjunto de dogmas. Ainda nas posturas intelectuais diante do conhecimento religioso, teríamos os relativistas, para os quais a verdade religiosa vai depender do ponto de referência adotado, podendo ser diferente se o ponto referencial é uma religião e depois outra. Já os ecléticos influenciaram os ecumênicos, em que haveria a possibilidade de a verdade religiosa ser obtida pela conjunção de pequenos elementos de verdade extraídos das diversas religiões.
Epistemologicamente, essas concepções são diversas e respeitadas, sendo mais complexo quando, a partir dessas convicções as pessoas decidem se relacionar uma com as outras. Se estamos então, no nível da moralidade, cada um com a sua escolha; mas, entretanto, se entramos na esfera das relações de poder – seja na espera familiar, escolar, do trabalho, no Estado ou País –, o problema epistemológico deixa a discussão da verdade para a questão da imposição da verdade; entramos na esfera política.
O posicionamento religioso pode se confundir com um posicionamento político e isso pode ser prejudicial à paz em alguns casos. São bem conhecidos os conflitos históricos provocados por concepções religiosas envolvendo judeus e muçulmanos, católicos e protestantes, cristãos e muçulmanos, dentre outros. Esses conflitos extrapolaram – e ainda extrapolam, como é o caso de Israel e Palestina – os limites religiosos interferindo em questões políticas, territoriais, econômicas e culturais. É de se pensar em como a religião – em alguns casos – propulsiona a guerra com uma pregação de paz.
A oposição religiosa que leva a uma “guerra santa”, declarada ou não, verbal ou corporal, vem de uma distinção religiosa básica entre o que é sagrado e o que é profano. Com base nisso, os fieis passam a distinguir suas atitudes, pensamentos, ações e até companhias pelo que é considerado sagrado pela religião seguida. O desejo de ver outros também agregados à sua religião pode levar a uma guerra pela imposição de valores. Aqui se instala uma questão de ordem moral. Se se reconhecesse a liberdade moral e a liberdade de consciência: conceito defendido pelos filósofos principalmente a partir do iluminismo e progressivamente até os nossos dias, muitos conflitos e divergências religiosas ou não, poderiam ser evitados; contribuindo ainda para a liberação de homens, mulheres, povos, escravos, crianças e grupos antes e ora marginalizados para um lugar de autonomia moral em suas decisões.
Por fim, além dos conceitos relativos à moralidade, os conceitos filosóficos da epistemologia em relação à verdade e aos conceitos políticos sobre a aplicação da verdade podem ser uteis na reflexão mais aprofundada do tema. Afinal, por que temos a guerra se a divergência poderia ser solucionada por acordo moral; ou melhor, pela compreensão do outro? Percebe-se que, o sentido da “guerra” santa ou não, pode permear questões políticas e econômicas e não morais e religiosas. A compreensão da Filosofia para com as diferenças – religiosas ou não – não depõe a favor de conflitos e guerras.
Anderson Alves
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